Esperança

Eu era uma pessoa otimista
Encarava a vida com uma esperança pueril
E ria na cara do desalinho
Fintava os contratempos 
E fazia o queria

2020 chegou e destruiu
E algo cá dentro ficou irremediavelmente desarranjado

E eu tento corresponder a essa exigência de esperar o melhor, mesmo no meio dos destroços em que me transformei,
E arregaço a força de vontade até ao coração,
Mas, por mais que tente focar a visão, 
Não sei o que esperar

Como posso ter esperança
Sem saber o que esperar?

Desejos

Em tantas noites 

também eu me sentei debaixo de um negro céu

à espera que as estrelas caíssem no meu colo

e queimassem as pontas dos meus dedos, que insistem em carregar com todo o cuidado

este coração 

cadente

Desejo que nada o impeça de cair contra o chão.

Se te fores embora

Parte como chega o verão:

numa madrugada aleatória de junho,

despertados pelo suor que nos escorre pelo pescoço,

percebemos o cobertor a mais na cama.

Que assim seja o nosso desamor,

um problema de transpiração.

Pois o inverno estará perto, ao virar de duas estações, se te fores embora como o verão chega.

E o cobertor voltará à cama.



Passado

Ainda assim, talvez tivesse valido a pena ver-te arrancar-me a pele. Dois casulos lado a lado. 

Duas borboletas a acontecer.

Café do Parque

Ali, os beijos são nascente. 
E sou a água.
E tu és terra.

As primeiras monções
nós.
Sempre. Em cada regresso.

Vaga clarividência

Ver-te
É limpar o horizonte,
Que se faz aurora a cada volta
É caminhar inequívoca,
Com um olhar claro
É ir contigo,
Fazer estrada sem onde
É ter a fé do bom ladrão

Preciso de partir

Tantas vezes deixarei de morrer, para que não partas.