Assincronia

Assincronizamos a fome e o contentamento. 
O longe tornou-me deficitária e o perto não me creditou. 
O mesmo comprimento de onda, às vezes, não é surfável para ambos. 



Acalmia

Vale-me esta trégua periódica. A acalmia entre tempestades. 
O coração aliviado da dor para te amar livre.

Gosto destes dias. 

Luz, escuridão e sombra

Antes de me aconteceres, era nisto que acreditava:
"A luz expõe.
A verdade é luz.
Por oposição, a escuridão esconde.
A mentira é escuridão."
Antes de nós, ignorava a sombra.
E a sombra existe, não sendo luz nem escuridão. A sua verdade é outra. É crepúsculo e aurora. Não esconde, mas também não expõe. Nela se vislumbra, ainda que timidamente.
Eu acreditava que a claridade sobre as pessoas e as suas circunstâncias era sinónimo de verdade. Se podemos ver, se se encontra assim, sem vergonha, iluminado, é porque é verdadeiro. O que à luz não se pode expor e na escuridão subsiste, é mentira.
No entanto, na Natureza, é sobre a sombra que muita Flora nasce e morre. E há outra que só vinga mesmo na escuridão mais profunda. Olhemos para o fundo do mar, onde a luz não chega e uma rica flora aquática reina. É o seu ciclo de vida. É a sua verdade. Se as suas circunstâncias mudam e a luz a invade, ela perece.
Talvez seja assim connosco. Talvez a luz nos mate. Talvez a luz que expõe cruamente, nos seja nociva.
Eu queria-nos essa luz, mas somos sombra.
Eis a nossa verdade: somos a sombra bela de um fim de tarde e a sombra bela de um amanhecer.

Sombra

 Nada de bom emerge na sombra... nisto cria, antes de nos querer. 


O amor na forma de uma casa

O corpo pequenino e o olhar envergonhado, que se ergue, por instantes, quando o seu nome é pronunciado, está timidamente pousado no chão. Aos treze anos de vida facilmente se subtraem seis ou sete, tal a candura do seu rosto e a fragilidade do seu corpo. 
- A menina não fala? – pergunta a Senhora.
- Ela é calada. – responde a mãe – Mas, trabalhadora! Não se deixe enganar pelo seu físico, esta rapariga tem canseira.
- E como te chamas, menina calada? – pergunta a Senhora.
- Rosalinda – responde a menina, encarando o rosto da Senhora. Alta, bonita, cabelo negro arranjado. Rosto severo e olhar meigo. “É esta a senhora para quem vou servir”, pensa na tentativa de se acostumar rapidamente com a ideia.
- Estás preparada para ficar aqui? Tarda nada a tua mãe vai ausentar-se e só volta na próxima sexta-feira. – alerta a Senhora.
Rosalinda ergue os olhos, que havia colado novamente no chão, e inspeciona a casa onde irá servir a partir daquele dia. A sala é grande e bem mobilada. Nunca tinha visto sofás tão glamorosos e as cortinas parecem ter o tecido dos vestidos de noiva, que ela já tinha visto nas revistas da costureira lá da terra. Pela janela vê três crianças, rapazes, a jogar à bola no quintal das traseiras. “Talvez sejam os filhos”, pensa. 
- Tenho muito trabalho para ti, Rosalinda! – diz a Senhora – Mas, como prometido à tua mãe, não vais poder descurar os estudos. Vais voltar à escola em breve. – assevera.
- Sim, Senhora! – responde Rosalinda com educação.
Minutos antes, no caminho até àquela casa, a mãe falou, incansável, das regras de educação que ela devia adotar dentro da casa da Senhora.
Também os irmãos mais velhos serviam já noutras casas. Rosalinda sabia que aquele era o seu destino. Talvez a única maneira de fintar a fome e a pobreza certas. Quando a mãe bateu a porta da rua, teve de conter as lágrimas que, por natureza, tão facilmente lhe escavam dos olhos sempre que o assunto era despedida.
A habituação ao serviço foi difícil. Rosalinda era distraída. Tinha a canseira prometida pela mãe, mas, sem intenção, saltava de tarefa em tarefa sem terminar uma que fosse. A Senhora perdoava-a. Rosalinda era a filha que nunca tivera e, tal como se prometera antes de a conhecer, ia educá-la e amá-la como se laços de sangue as unissem. Rosalinda, por seu turno, demorou a perceber a bênção do amor que lhe saíra em sorte.
O corpo pequenino e os olhos levantados observam agora a fachada degradada da casa. Rosalinda completa hoje 68 anos. 55 passaram desde o primeiro dia em que a mãe bateu a porta da casa para voltar só no final da semana. As lágrimas, que não negam a sua natureza, escorrem-lhe pelo rosto enquanto, parada, encara o amor na forma de uma casa.

A morte mostrou-me

As mãos unidas, pousadas suavemente contra o peito. Um passo sempre atrás, atenta, deixavas falar e escutavas. Um sorriso gentil no rosto, que oferecias, vincava cuidadosamente cada uma das tuas rugas. Andavas ligeira, mas firme. Mais para o final da vida, cambaleante, mas sempre segura, ainda que em desequilíbrio. Tudo dizias com o teu silêncio e só gastavas as palavras para agradecer. E não saiam da tua boca em vão. Para ti, nada estava garantido e tudo era uma dádiva. Vivias não para o que desejavas, mas para o que te fora confiado. Sempre temente ao que era superior a ti. Durante muito tempo, desejei que tivesses tido outra vida. Esta que te haviam dado, parecia-me pouco justa e nada digna da tua essência. 
Porque te silenciavas, parecias-me amordaçada. Porque te detinhas um passo atrás, parecias-me relegada para segundo plano. Porque permitias que as rugas se reproduzissem no teu rosto sem vaidade, parecias-me sofredora. Porque sorrias em silêncio e confiavas, parecias-me sem voz e sem liberdade. Porque nada cobiçavas, parecias-me parca em ambição.
Há algum tempo, o Vicente perguntou-me se depois de morrermos voltávamos a ser novamente bebés. Eu sorri. Durante muito tempo desejei que assim fosse. Desejei que voltasses a esta vida para viver o destino mais justo que eu te queria. Muitas vezes, questionei-me se eras feliz. Faltou-me a coragem de to perguntar em vida. 
Foi só quando ele partiu que eu vi. A morte mostrou-me que a tua existência não era nem fora um equívoco. Tudo o que confiaste para ti tinha um nome: AMOR.

Dedicado ao meu avô, que partiu há nove anos. Acredito que o melhor tributo que lhe posso fazer é escrever sobre a mulher que amou e encheu de sentido a sua existência.

Preciso de partir

Tantas vezes deixarei de morrer, para que não partas.