Amor à mão

Que me importa que estejas longe da vista, o que preciso é de te ter à mão

Na mão
Com a mão
Pela mão
Mão com mão
A quatro mãos

Se o amor é cego, que mal tem?
Não preciso dos olhos para te ver.
Tenho um corpo. E tenho pele. E tenho pernas. E tenho pescoço. E tenho cabelo. E tenho língua. E tenho boca.

E mãos para te ver.

Espanto

Vamos morrendo de espanto. Primeiro, em retalhos. No fim, o todo que resta. Num caso como noutro, o espanto é o gatilho.

O espanto é uma morte fértil. Não é semente daquilo que o causa. Mas, cava sulcos na terra que somos e fertiliza-os.

Repara, se me espanta não receber notícias tuas, não é por me espantar que elas chegarão. Portanto, o espanto vai aniquilando uma certa esperança, abrindo um espaço, que antes não existia, para algo novo.

O espanto é um fantasma, que se destapa, um susto, que enche os pulmões, algo inusitado, que não se deseja, mas que encaixa. 

O espanto é um perecer em brando lume, a ferver, que não se esgota.

A súbita consciência de um fogo inexistente, que abrasa, sem cessar, coração de quem o sente. 

O espanto congela a veias, mas não pára o coração.

O espanto é uma morte lenta e um começo voraz.  É o momento que antecede um fim e um início simultâneos.

É o espanto que nos mata, para que possamos viver.

Espantemo-nos então.







Presente

Estou aqui.
Contigo presente.
Sempre.
Mesmo que os sonhos sejam tremendos,
E as noites me assombrem com medos,
Em cada madrugada receber-te-ei no meu coração.
Sempre.
Estarei aqui.

Distância

Estar distante é diferente de ser distante.
Não estamos próximos, mas somos próximos.

Os locais que nos apartam, não desagregam. Mas, eu prefiro quando a geografia dos nossos corpos se funde.

Desacelerar

A vida é uma viagem de carro.
Tu és o condutor.
Reduz. 
Se não conseguires, estarei no lugar no passageiro com a mão no travão.
Pronta para puxar.


Verdade

Há só uma? Quando procuramos a verdade não estaremos já equivocados por crer na sua singularidade? Não seria mais sensato procurar verdades? 

Uma verdade pode ser plural? E escalável? A verdade que me serve, serve a todos (a toda a humanidade) do mesmo modo? 

A verdade é polarizável? Cumpre o princípio da polaridade positiva e negativa? Se a verdade estiver num grupo/contexto/pessoa, não está jamais em outro que se lhe oponha? O que está no outro então? A mentira?

Se te amar for a minha verdade, significa que estarei a viver uma mentira em tudo o resto que se oponha a este amor?

Não viver

Permitimo-nos viver, mesmo considerando que este não é o tempo certo. Mas, que outro tempo tivemos? Onde é que já existimos como agora somos? Que tempo virá, em que seremos o que somos hoje? Não houve Passado "assim" e não sabemos se haverá um Futuro para este "assim". 

Formulo, continuamente, argumentos, como se, todos os dias, estivesse em julgamento, para me convencer de que não havia outra alternativa. Mas, havia: Não viver. 

Não viver para sofrer. Sofrer por não viver.

E, contudo, vivemos e sofremos. Juntos.

O sofrimento não é uma contingência.

Saudade

Não tenho sempre o que escrever...
Às vezes, só tenho o que sentir...
Saudade

Mais cedo

Se eu pudesse mudar,

Mudava o meu poder

Para

Poder ser isto que somos

Num instante mais atrás

Nesta vida

Mais cedo


Preciso de partir

Tantas vezes deixarei de morrer, para que não partas.