Aparato no peito

Este exagero absurdo em que transformo a mágoa, percebo que te seja perfeitamente inútil. Na verdade, se eu pudesse ser só ser um ato de razão, também tornaria inutilidade tudo o que sinto. Não há saldo positivo quando se carrega este aparato no peito horas a fio. 

Não me assombram os teus mil afazeres.

Nem que o tempo te passe entre os dedos sem dares conta.

Incomoda-me que não tenhas, como eu, um aparato no peito.

Visitante

A noite já caiu há muito
E as nuvens bloqueiam a luz da lua e das estrelas

A mesa está posta, flores murchas numa jarra sem água
Duas cadeiras, uma vazia

Há silêncios para pôr em dia
Onde em tempos conversas te esperaram

A porta está fechada
E até as janelas se incomodam com a luz do sol, quando há dia lá fora

Talvez não valha a pena aguardar

Tenho tantas coisas para te mostrar
Mas, agora tudo me parece velharia, gasta pelo tempo e pela ausência

Talvez se eu abrisse a porta
E juntasse cadeiras à mesa
Quem sabe o silêncio desse lugar à prosa
E as portadas rasgassem fissuras para a aurora entrar.

Esperança

Eu era uma pessoa otimista
Encarava a vida com uma esperança pueril
E ria na cara do desalinho
Fintava os contratempos 
E fazia o queria

2020 chegou e destruiu
E algo cá dentro ficou irremediavelmente desarranjado

E eu tento corresponder a essa exigência de esperar o melhor, mesmo no meio dos destroços em que me transformei,
E arregaço a força de vontade até ao coração,
Mas, por mais que tente focar a visão, 
Não sei o que esperar

Como posso ter esperança
Sem saber o que esperar?

Desejos

Em tantas noites 

também eu me sentei debaixo de um negro céu

à espera que as estrelas caíssem no meu colo

e queimassem as pontas dos meus dedos, que insistem em carregar com todo o cuidado

este coração 

cadente

Desejo que nada o impeça de cair contra o chão.

Se te fores embora

Parte como chega o verão:

numa madrugada aleatória de junho,

despertados pelo suor que nos escorre pelo pescoço,

percebemos o cobertor a mais na cama.

Que assim seja o nosso desamor,

um problema de transpiração.

Pois o inverno estará perto, ao virar de duas estações, se te fores embora como o verão chega.

E o cobertor voltará à cama.



Preciso de partir

Tantas vezes deixarei de morrer, para que não partas.