Mapa

Sou um terreno minado
Uma implosão iminente
Caminho-me, desarmada,
entre hemisférios,
na expectativa de uma passada, 
que me congele as pernas.
O coração a pisar o artefacto explosivo,
Uma voz interior que me grite: 
Para!

E, de cá dentro, eu vejo-te, paciente,
A desenhar o mapa que sou:
"As tuas minas estão aqui
E é assim que as desativas" 

Tempo

Sabes, não desejo ser
o certo no tempo errado
nem erro no tempo acertado

Devo ser a verdade no seu tempo.

Contar os sóis

O sol também nasce para quem se põe à janela.
Cotovelos pousados, 
Onde não pára o peito.
Olhos esbugalhados como faróis,
colados num horizonte, cheio de mar.
À espera que o sol se ponha
para cessar. 
Outro dia que chegue,
o mesmo sol para levantar.

Consensos não existem em Democracia


Nota prévia: 
A motivação para a reflexão tem a ver com a justificação política, apresentada persistentemente pelos nossos governantes, para validar todas as decisões tomadas, a propósito da pandemia que vivemos: o CONSENSO. Quando uma medida menos popular reflete na sociedade um reação mais quente, António Costa, ou outro representante do governo, usa o trunfo da consensualidade parlamentar, na tomada de decisão, para "calar" a reação.

Ora bem...

Tanto num regime democrático, como na vida em geral, acredito em cedências vigilantes e não em consensos, no ato de decidir. 
A validade de uma decisão não pode ser medida pela consensualidade que envolveu, no grupo que a decidiu. Até porque não há regime político mais consensual do que uma ditadura e isso não a torna legítima.
Em plena pandemia, todas as decisões políticas têm sido justificadas ou alicerçadas num assentimento parlamentar perigoso, que parece adormecer quem ajudou a decidir. Porquê? Porque, ao encontrar deferimento nos diferentes deputados, as medidas deliberadas parecem afastar vigilantes. Toda a decisão tomada deve ser vigiada criticamente e de perto. Todas as medidas implicam vigílias. 
Comparemos o ato de decidir/vigiar ao ato de selecionar no GPS um destino, para o qual nos queremos deslocar, quando não estamos certos do melhor caminho a tomar. Durante a viagem, não nos limitamos a fazer o que o GPS indica. Observamos, atentamente, o que dizem as placas na estrada, se o caminho indicado for um caminho de cabras, hesitamos, voltamos atrás. Em última instância, se tivermos um pressentimento de que estamos perdidos, paramos o carro, baixamos o vidro e pedimos orientações a um local. O GPS é, consensualmente, uma ferramenta muito fiável, mas, ainda assim, não tem a nossa confiança cega. Decidir e vigiar é muito isto. Decidimos e, mesmo com o conforto de uma aceitação generalizada em relação à decisão tomada, continuamos a vigiar, porque sabemos que o consenso não valida a decisão. O consenso, que, na minha opinião, é mais cedência, confere poder para agir, para avançar. Mas, não devia conferir poder para calar quem se opõe. E eu sinto que estamos a ser amordaçados por um consenso, que facilita o trabalho do Governo, mas que serve a poucos. 

Tempo

A que saberão estes frutos
Que colhemos ao tempo, sem tempo,
Debaixo de um lento céu, excedente em nuvens chorosas,
Sem agasalho na alma
Sem as mãos calejadas
E com o coração faminto.

Escrúpulos

Como grande parte da nossa sociedade, porque inserida numa cultura judaico-cristã, fui educada a não julgar o próximo. Mais, fui ensinada que julgar é mau e faz de mim uma pessoa mais próxima do Mal do que do Bem. Por isso, quando o faço - e faço-o muitas vezes, porque decido - sinto-me uma pessoa sem escrúpulos, o que me leva a refletir: por que me mói tanto o ato de julgar e por que razão não consigo evitá-lo?

Ajuizamos a toda a hora. Viver é uma catadupa de julgamentos. Avaliamos coisas, eventos e pessoas. Fazemo-lo por uma questão de sobrevivência estratégica. Quando julgamos, estamos a agir, por intuição ou deliberadamente, de modo a garantir a nossa continuidade e a dos nossos, nas condições mais favoráveis, dentro de um quadro de valores que defendemos e adotamos. Bons e maus juízos permitiram à Humanidade chegar ao momento em que vivemos. Um julgamento não acontece no vazio, sucede a algo. Em última análise, temos gravado no nosso ADN as aprendizagens de um sem número de julgamentos, feitos pelos nossos antepassados - uma espécie de memória RAM - que nos ajudam a assegurar a continuidade da espécie, julgando o melhor possível cada ato nosso e dos outros. 

A propósito do ato de julgar, ouvimos, com frequência, o seguinte raciocínio: o que vês no outro é o teu reflexo. Portanto, se vejo maldade no outro, sou má. Se vejo bondade, sou boa. E por aí a fora…

Ultimamente, tenho refletido sobre esta argumentação (que não é menos que um juízo), que surge, quase sempre, quando o julgamento é negativo e a parte julgada se sente ofendida. Assumir o outro como nosso espelho é desresponsabilizá-lo, é destituí-lo da sua capacidade de agir de livre arbítrio. Pior, de acordo com esta premissa, o outro só existe porque eu existo; e eu não existo sem o outro, porque não há existência possível se não houver outro onde nos projetarmos.

Pergunto-me, perdemos a nossa essência, a nossa unicidade, se o nosso semelhante não estiver por perto, para nos vermos ao espelho? Não creio… e basta enumerar uma série de personalidades que passaram pela clausura e isolamento e que não se perderam de si, durante esse período…

Até posso aceitar que, pontualmente, exista alguma ambiguidade no nosso julgamento, sobretudo quando estamos desequilibrados ou feridos emocionalmente, mas não creio que seja a norma nem que essa ambiguidade seja obrigatoriamente o reflexo daquilo que somos. Como disse, um julgamento sucede a algo. Um comportamento, uma conversa, uma intenção espoletam julgamentos. Muitas vezes, remetem-nos para eventos passados, com características idênticas, que podem resultar em consequências similares. Julgamos para mudar ou para manter. 

O que eu vejo no outro, pode muito bem ser o que ele é. O que eu vejo no outro, pode não ter nada a ver com o que eu sou. 

Ter a capacidade de julgar é ter a capacidade de fazer caminho. E, enquanto avançamos, com a certeza do que queremos, ajuizaremos sobre tudo o que encontrarmos na jornada, sempre com o intuito de não nos perdermos da nossa missão.

Julgar com escrúpulos é útil para sermos o menos injustos possível. E talvez por isso não ceda em abandonar esta espécie de indecisão, que persiste no espírito, mesmo quando tudo indica que fiz um bom julgamento. Mais a mais, dá-me alguma tranquilidade saber que não temo ser julgada na mesma medida.

Poema de Amor

Amor,
As flores dos meus canteiros desertaram.
Arrancaram-se pelas raízes e partiram.

Fugiram para a ponta do meu lápis de carvão
e enterraram-se no papel dos meus cadernos.

Somente porque desejavam 
ser os poemas que te dediquei.

E agora a minha poesia é um jardim
Onde passeamos, todos os dias.

Preciso de partir

Tantas vezes deixarei de morrer, para que não partas.