Corpo

Não vandalizes a minha pele
Com o esboço de uma intenção

Nem seles os meus olhos
Com o visco de um beijo imprudente

A minha boca não fartes
Com a saliva de uma fonte seca

Porque do corpo não se apagam rascunhos
Os olhos nunca mais enxergam após um beijo
E a boca jamais saboreará outra vontade que não a da morte

Mapa

Sou um terreno minado
Uma implosão iminente
Caminho-me, desarmada,
entre hemisférios,
na expectativa de uma passada, 
que me congele as pernas.
O coração a pisar o artefacto explosivo,
Uma voz interior que me grite: 
Para!

E, de cá dentro, eu vejo-te, paciente,
A desenhar o mapa que sou:
"As tuas minas estão aqui
E é assim que as desativas" 

Tempo

Sabes, não desejo ser
o certo no tempo errado
nem erro no tempo acertado

Devo ser a verdade no seu tempo.

Contar os sóis

O sol também nasce para quem se põe à janela.
Cotovelos pousados, 
Onde não pára o peito.
Olhos esbugalhados como faróis,
colados num horizonte, cheio de mar.
À espera que o sol se ponha
para cessar. 
Outro dia que chegue,
o mesmo sol para levantar.

Consensos não existem em Democracia


Nota prévia: 
A motivação para a reflexão tem a ver com a justificação política, apresentada persistentemente pelos nossos governantes, para validar todas as decisões tomadas, a propósito da pandemia que vivemos: o CONSENSO. Quando uma medida menos popular reflete na sociedade um reação mais quente, António Costa, ou outro representante do governo, usa o trunfo da consensualidade parlamentar, na tomada de decisão, para "calar" a reação.

Ora bem...

Tanto num regime democrático, como na vida em geral, acredito em cedências vigilantes e não em consensos, no ato de decidir. 
A validade de uma decisão não pode ser medida pela consensualidade que envolveu, no grupo que a decidiu. Até porque não há regime político mais consensual do que uma ditadura e isso não a torna legítima.
Em plena pandemia, todas as decisões políticas têm sido justificadas ou alicerçadas num assentimento parlamentar perigoso, que parece adormecer quem ajudou a decidir. Porquê? Porque, ao encontrar deferimento nos diferentes deputados, as medidas deliberadas parecem afastar vigilantes. Toda a decisão tomada deve ser vigiada criticamente e de perto. Todas as medidas implicam vigílias. 
Comparemos o ato de decidir/vigiar ao ato de selecionar no GPS um destino, para o qual nos queremos deslocar, quando não estamos certos do melhor caminho a tomar. Durante a viagem, não nos limitamos a fazer o que o GPS indica. Observamos, atentamente, o que dizem as placas na estrada, se o caminho indicado for um caminho de cabras, hesitamos, voltamos atrás. Em última instância, se tivermos um pressentimento de que estamos perdidos, paramos o carro, baixamos o vidro e pedimos orientações a um local. O GPS é, consensualmente, uma ferramenta muito fiável, mas, ainda assim, não tem a nossa confiança cega. Decidir e vigiar é muito isto. Decidimos e, mesmo com o conforto de uma aceitação generalizada em relação à decisão tomada, continuamos a vigiar, porque sabemos que o consenso não valida a decisão. O consenso, que, na minha opinião, é mais cedência, confere poder para agir, para avançar. Mas, não devia conferir poder para calar quem se opõe. E eu sinto que estamos a ser amordaçados por um consenso, que facilita o trabalho do Governo, mas que serve a poucos. 

Tempo

A que saberão estes frutos
Que colhemos ao tempo, sem tempo,
Debaixo de um lento céu, excedente em nuvens chorosas,
Sem agasalho na alma
Sem as mãos calejadas
E com o coração faminto.

Preciso de partir

Tantas vezes deixarei de morrer, para que não partas.