Meteorologia de um corpo zangado

Na boca, um céu fechado
Na cabeça, uma nuvem carregada,
Que se precipita pelos olhos
Ao longe, ouve-se a trovoada no coração
muito depois dos relâmpagos que rasgam os lábios
O sangue galga os poros, 
mil caudais excedentes na pele
Das narinas, rajadas de vento
Levantam as mãos e os braços, descontrolados.

Estar como o tempo exige meteorologia.


Fio enrolado no dedo

No meu dedo enrolaste um fio vermelho,
Como fazem os antigos, para a memória não falhar,
E no coração colocaste-me uma roca, para nos fiar lentamente

Não te preocupes, não esquecerei:
Tecerei contigo os dias
Os anos
A vida
Com a paciência das mãos, que não esquecem, com um fio enrolado no dedo.

Palavras feitas

Queria desenrolar-me e enrolar-te
Fita vazia 
História desgravada
Não gastar as palavras com a boca 
Esgotá-las no corpo sem um discurso

Fazer palavras sem as dizer.
O concreto no Amor.


Corpo

Não vandalizes a minha pele
Com o esboço de uma intenção

Nem seles os meus olhos
Com o visco de um beijo imprudente

A minha boca não fartes
Com a saliva de uma fonte seca

Porque do corpo não se apagam rascunhos
Os olhos nunca mais enxergam após um beijo
E a boca jamais saboreará outra vontade que não a da morte

Mapa

Sou um terreno minado
Uma implosão iminente
Caminho-me, desarmada,
entre hemisférios,
na expectativa de uma passada, 
que me congele as pernas.
O coração a pisar o artefacto explosivo,
Uma voz interior que me grite: 
Para!

E, de cá dentro, eu vejo-te, paciente,
A desenhar o mapa que sou:
"As tuas minas estão aqui
E é assim que as desativas" 

Tempo

Sabes, não desejo ser
o certo no tempo errado
nem erro no tempo acertado

Devo ser a verdade no seu tempo.

Contar os sóis

O sol também nasce para quem se põe à janela.
Cotovelos pousados, 
Onde não pára o peito.
Olhos esbugalhados como faróis,
colados num horizonte, cheio de mar.
À espera que o sol se ponha
para cessar. 
Outro dia que chegue,
o mesmo sol para levantar.

Preciso de partir

Tantas vezes deixarei de morrer, para que não partas.